O Poder do Reino do Bailundo no Planalto Central
O Reino Bailundo, ou Reino Mbalundu, foi um Estado
nacional africano,
localizado no Planalto Central de Angola, que tinha como
capital a cidade de Halã-Vala (depois Bimbe-Katapi), que atualmente
chama-se Bailundo.
Em seu auge, seu território compreendia boa parte das províncias do Huambo, Benguela, Bié, além de
uma pequena porção da Huíla, sendo a maior das entidades nacionais dos ovimbundos.
Sua formação como entidade nacional se deu por volta de
1700, sob a égide do Soma Inene (Rei) Katyavala Bwila I, sendo que só foi
finalmente subjugado pelo Império Colonial Português em 1903.
Suas tradições, no entanto, permanecem na monarquia subnacional bailunda que
assenta-se na cidade de Bailundo.
O reino inicialmente tinha o nome de "Halavala",
em alusão ao monte homônimo, principal referencial geográfico da região. A
mudança para o nome "Mbalundo" se deu em consequência de um costume
local de uso de um adorno corporal que se chamava "ombalundo". Mbalundo
pode significar também uma "toupeira com uma listra branca na testa".
Em 1700 Katyavala Bwila I, fugido de conflitos com sua tribo, deixa a região do Humbe, rumo ao Planalto Central de Angola, chegando ao monte Halavala. Sob seus auspícios, cinco ombalas (cidades) da região, Halã-Vala, Quiaca, Calique, Andulo e Vilé, uniram-se sob sua figura, fazendo-o seu grande Soma Inene, o grande monarca dos bailundos, assentando-se na ombala de Halã-Vala (depois Bimbe-Katapi).
O reino sobreviveu tranquilamente até que os anseios
coloniais portugueses alcançaram definitivamente a região, marcado pelo envio
de um juiz em 1771, e; de um capitão-mor em
1785. Sob o reinado de Chingui I (1774-1776), o reino quase foi dissolvido,
além de entrar em colapso econômico pois, ao empreender a primeira guerra contra
o poder colonial, onde principalmente a segunda batalha tendo causado um efeito
terrivelmente nefasto aos bailundos, o reino perdeu duas de suas cinco cidades
ao final da mesma, já sob o reinado de Chiliva Bambangulu Chingui II
(1776-1778).
O reino permaneceu fragilizado devido à presença colonial
portuguesa, até que Chivukuvuku Chama Chongonga assumiu como 12º Soma Inene dos
bailundos, em 1818. Este revolveu tomar como política primordial a defesa das
fronteiras de Bailundo, organizando uma tropa regular com oficiais, ante o
avanço dos colonos portugueses. Seu reinado foi curtíssimo (terminou em 1818),
mas sua política influenciou definitivamente para a viragem de rumo do reino.
O ápice do reino Bailundo viria ocorrer sob o reinado do
Soma Inene Jolomba Chissende Ekuikui II (1876-1890),
considerado um diplomata exímio e político muito hábil. Evitou o
conflito militar com Portugal, dando-lhes certos privilégios, além de incentivar a
produção agrícola, fazendo do seu reino um celeiro para abastecer a África Ocidental Portuguesa. Durante
seu reinado, por meio de muitas alianças, o território Bailundo cresceu,
atingindo o ápice, comportando 50 ombalas, 300 aldeias e 450 mil habitantes. Os
poucos conflitos em seu território não afetaram a estabilidade de Bailundo.
Com a subida do Soma Inene Numa II (1890-1892), e a
interferência do capitão português Justino Teixeira da Silva, o
reino entrou em rota de colisão com Portugal, levando à segunda guerra (1891-1903).
O conflito tomou proporções muito grandes, com
diversos crimes de guerra cometidos pelo lado
português, tais como saques, estupros em massa, massacres e escravidão de
prisioneiros civis. Embora o reino Bailundo resistisse, o combate mostrava-se
mais decisivo pelas topas lusitanas, que avançavam a cada batalha.
Essa situação só alterou-se momentaneamente com a subida ao
poder do Soma Inene Mutu-ya-Kevela (1902-1903), que desde o
reinado de Kalandula (1900-1902) tinha o comando das tropas do Reino Bailundo.
Este reorganizou a força militar bailunda, que lhe rendeu algumas vitórias,
além de constituir uma aliança estratégica com o rei Samakaka, monarca do reino do
Huambo, que lhe deu ainda mais poder de fogo.
Porém, em 1903, um duro golpe foi dado na até então
vitoriosa estratégia de Mutu-ya-Kevela: O padre Gueep da Missão Católica do
Hanga, sob a justificativa de uma missão diplomática em favor dos bailundos,
entregou as posições militares do reino aos portugueses, sob comando de Massano de Amorim. Assim,
em 1903, caía definitivamente a autonomia do Reino Bailundo.
Após a queda, Teixeira da Silva ergue, em 16 de julho de
1903, o Posto do Bimbe-Katapi, na então capital do reino. Esta posteriormente
viria a ser denominada de Vila Teixeira da Silva.
O Poder do Reino do Bailundo no Planalto Central
O Reino do Bailundo foi um dos mais poderosos e
organizados reinos dos Ovimbundu no Planalto Central de Angola. A sua
influência estendia-se por várias regiões que hoje fazem parte da província
do Huambo, incluindo áreas que actualmente integram o município da Caála.
Muito antes da colonização, o Bailundo já possuía: Estrutura política
consolidada, sistema de sucessão tradicional, organização militar e rede de
comércio regional. Não era apenas um reino local. Era uma potência tradicional.
Resistência e Conflitos
No final do século XIX e início do século XX, o Reino do Bailundo tornou-se símbolo de resistência contra a ocupação colonial portuguesa. Houve confrontos marcantes que demonstraram que os reinos ovimbundu não aceitaram passivamente a dominação. Esse espírito de resistência moldou o carácter do povo do Planalto Central, resiliente, estratégico e unido.
Influência Cultural na Caála
A Caála herdou do Bailundo, o respeito pela autoridade
tradicional, a organização comunitária baseada em linhagem, a valorização da
agricultura (milho como base económica) e o espírito de liderança regional. A
identidade da Caála está profundamente ligada a essa herança histórica.


